GÉNESE, CAMINHADA E AFIRMAÇÃO

Desde a sua fundação, o Teatro TapaFuros tem procurado uma versatilidade que julgamos ser imprescindível
face ao panorama cultural contemporâneo. São os tempos da interdisciplinaridade ou da transdisciplinaridade,
são tempos de uma procura vigorosa – e por vezes angustiante – de novas linguagens, de novos caminhos
e soluções. Mas esta angústia não é negativa e propõe antes um revigorar de energias, um olhar ainda
mais atento e pertinente sobre a realidade e suas diversas manifestações.

Referiu-se acima a versatilidade. Que versatilidade? Por um lado – e do ponto de vista estritamente
artístico – é a versatilidade na procura de novas linguagens; como arte total que é o teatro, nos dias de hoje existem inúmeras possibilidades - e aqui a tecnologia tem aberto surpreendentes soluções: o recurso ao vídeo,
nas vertentes de imagem diversas, mas igualmente cruzando com a música electrónica (por computador)
ou as mais recentes propostas da área da dança contemporânea,
do movimento, da própria palavra que toma novos significados, e do cruzamento da cenografia com a escultura,
a instalação, etc... São surpreendentes os resultados desta interdisciplinaridade ou, usando outro termo
em voga, da transdisciplinaridade – pois todas as linguagens artísticas já se transpôem ou transmutam
entre si com resultados muito positivos para o que poderá ser a constituição de uma contemporaneidade
na arte teatral. Mas este é um dado adquirido e em pleno curso.

Reflectiremos seguidamente numa outra significação da palavra versatilidade, uma das palavras com
que este colectivo bem se identifica e que esperamos justa para clarificar um modo de ser e estar do Teatro TapaFuros e – mais ainda – o projecto artístico que prossegue desde a génese e pretende continuar no futuro.
Trata-se de uma versatilidade nas linhas de acção do grupo, fruto tão-só do tempo e da experiência
em campo ao longo da caminhada que se realizou. Identificamos vários problemas que se prendem
não só com uma crise geral, se assim pudermos referir, de público, por exemplo, mas também com
a conjectura particular da comunidade onde nos inscrevemos. Assim, dando um breve relance de olharàs problemáticas levantadas: por um lado, fruto das diversas ofertas e sugestões dos mass-media, podemos eventualmente falar de uma crise de público (ou públicos), constantemente em demanda de produtos
e ofertas atraentes e acessíveis – além de não muito onerosas ... É evidente que também há consciência
que o combate contra salas vazias é realizado com insistência e surte efeitos.

Mas é necessário prosseguir, sem concessões; por outro lado, lembremos os aspectos conjunturais
da comunidade ou área de acção do Teatro TapaFuros: o Conselho de Sintra é um local com duas realidades distintas: a urbana e a rural. Esta última é a mais bucólica, onde encontramos ainda um genuíno ambiente
de aldeia e uma subsistência da sua população assente no trabalho agrícola...
Do ponto de vista teatral encontramos um trabalho amador de valor incalculável e que move, aqui e ali,
públicos ávidos por espectáculos – basta constatar no terreno: o género da revista ou do “vaudeville”, arrasta multidões. A realidade urbana, ou mais especificamente, a realidade de subúrbio é outra, e menos pacífica: populações desenraizadas não só compostas por nacionais mas também por diversas etnias e povos, falta
de infra-estruturas básicas, sejam jardins, parques infantis ou campos para desporto...
Um panorama cinzento e com poucas possibilidades de resolução.
Tornando a falar da população que habita o subúrbio, esta é na generalidade, pouco interessada
no que se passa à sua volta, pois afinal é apenas um dormitório aquele local. Há uma tendência
para acreditar que tudo se passa na capital – Lisboa.
E de facto Lisboa é hoje uma capital europeia onde fervilha a actividade cultural nos seus variados domínios.
Lisboa tem vindo a acordar ao longo de anos.

Ora tem sido esta a tarefa do Teatro TapaFuros e de outros colectivos profissionais a trabalhar
em Sintra– acordar.
Acordar uma população que poderá estar pouco desperta para o que se passa mesmo ao seu lado,
“num teatro perto de si”, se é permitido o uso de uma frase tão conhecida e aplicada a outra arte,
a sétima... A conquista de público e de públicos é essencial e é a pedra – de – toque para que se cumpra
a grande finalidade da arte, pelo menos a nosso ver: comunicar...
Porque é disto que se trata: dois interlocutores que dialogam, que comunicam: teatro e público.

E assim tem sido traçada a nossa estratégia e constituída uma filosofia que orienta o grupo com o objectivo
de encontrar o público, os públicos: é necessário ir de encontro ao público porque inúmeras vezes
ele não vem ao nosso encontro...
O Teatro TapaFuros delineia a sua acção em três momentos, sempre com o objectivo do encontro com diversos tipos de público; o trabalho no teatro para a infância e juventude, com textos quase sempre inéditos,
lúdicos e pedagógicos, além de procurarem uma estética e estilo que despertam a sensibilidade
deste público tão específico...
É uma aposta na formação de um público que será inevitavelmente o público de amanhã; o trabalho de sala, procurando igualmente textos que proponham novos olhares sobre as mais variadas temáticas e assuntos,
na perspectiva da reflexão e numa constante investigação de novas linguagens; o trabalho na área de teatro
de rua, que tem sido amplamente explorado pelo Teatro TapaFuros e num local tão imensamente propício
como é Sintra, com toda a sua monumentalidade...
O encontro com o público, por vezes em lugares inesperados e de maneiras inusitadas; permite-se
desse modo um contacto mais amplo e com maiores massas de público – e com a consequente
conquista deste para as salas de teatro convencionais.

E assim, damos valor justo à palavra versatilidade: de uma forma coerente, cuidada e pertinente realizar
o encontro com diversos públicos, onde quer que se encontrem. Acreditamos ser este o objectivo importante
para a estrutura e temos na equipa intervenientes que, ao longo de anos de trabalho, têm connosco reflectido
e encontrado soluções criativas na prossecução dos projectos do colectivo.
Autores e dramaturgos aqui vivendo e realizando a sua obra e que muito bem conhecem essa realidade,
trabalham em conjunto com encenadores, actores e técnicos e vêem o espectáculo surgir; temos vindo
a apostar numa dramaturgia portuguesa, de autores contemporâneos e que inclusivé fazem parte da equipa.
A divulgação destas obrasé importante na medida em que estamos juntos a construir um património
do Presente, mas igualmente um património para o Futuro. O teatro para a infância e juventude
permite uma ligação privilegiada com este estrato do público não só oferecendo um momento lúdico-artístico
de importância cabal na formação da personalidade destes pequenos espectadores, como vai criando
uma relação pedagógica com os estabelecimentos de ensino, não só na inclusão e apoio aos programas,
mas nas próprias possibilidades de formação sugeridas pelas idas ao teatro realizadas por alunos
e professores.

Como conclusão, acreditamos que o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido ao longo destes anos
está profundamente enraizado na comunidade e tem provado estar no bom caminho, visto ser
relativamente fácil observar. Aumento de público ( e públicos) nas diversas fases de trabalho;
é um trabalho realizado por intervenientes que conhecem bem o terreno e as vias de implantação.

O historial do Teatro TapaFuros dá conta da versatilidade de que temos vindo a falar; parece-nos
uma palavra rica em significado, plena de sentido. Tem orientado a nossa acção que prima,
como observámos, por uma pleiade de actividades sempre com um sentido de qualidade e com o respeito
que o público merece.
E o público tem sido juiz: acorrendo, assistindo, aplaudindo e reflectindo em conjunto sobre tudo
o que esta arte – o Teatro – revela: a vida, em suma. O Teatro TapaFuros gosta deste diálogo
com o público: desta conversa tudo tem nascido...

O poeta diz: “(...)mundos dentro e fora de mundos (...)”

 
informação geral
texto encenador
TEXTO AUTOR PAULO BORGES
GRUPO TAPAFUROS